segunda-feira, 21 de novembro de 2016

Três textos

Um da Anna, outro da Isabel. Embora curtos, a minha proposta é usá-los como exercício: há algo que possa/deva ser corrigido?

Uma ideia? A organização de uma frase? Uma gralha chata? Algo que pode ser simplificado, melhorado, clarificado?

Amostra 1: Isabel

Proposta de Tema de Trabalho

   O projecto a desenvolver no âmbito de Tese de Mestrado em Estudos Portugueses no presente ano lectivo ,
 prende -se com  a análise de factores sociais e históricos na literatura brasileira e lusófona , em torno dos séculos XVIII e XIX . 
   Abordarei como tema central a escravatura no Brasil Colonial , servindo este mesmo de pretexto para voltar a trazer à luz um dos mais famosos romances de todos os tempos : “ A Escrava Isaura “ .
   Esta obra romântica de Bernardo Guimarães encontra -se bastante esquecida face ao quotidiano dos dias de hoje , tendo sido por um feliz acaso que me deparei com o surgimento , neste mesmo ano , de uma nova telenovela brasileira que retrata o tempo em causa , indo focar -se na prequela da história de amor proibido entre os progenitores da dita heroína .
   O português Miguel e a mestiça Juliana são assim os protagonistas de uma época onde as castas e hierarquias sociais eram severamente demarcadas com o recurso à escravidão do povo africano , pelo que temas como o racismo , o preconceito , a ignorância , violência mas também a esperança e a luta por um amanhã mais justo são as principais estruturas de toda a acção da série.

   Neste  trabalho faço a análise de factores internos entre as duas novelas e suas respectivas tramas , centrando -me quer nas vidas dos personagens e seus actos , quer na relação que estes estabelecem em ambas as histórias e o contributo para o seu desenlace , indo de encontro a fenómenos passados na própria sociologia e  historicidade dos momentos relatados e revelando uma luta entre ideais esclavagistas e abolicionistas , bem como  importância que este duelo de mentalidades teve (e tem ainda ) para a construção da nacionalidade e identidade brasileiras.


Amostra 2: Anna

O projeto da dissertação de mestrado sobre a construção da identidade cabo-verdiana na literatura das ilhas

            Cabo Verde é um país em que durante séculos misturaram-se várias nacionalidades e várias culturas. Esse ambiente de “encontro” fez com que surgissem entre os cabo-verdianos muitas dificuldades na definição da sua própria identidade. A minha dissertação de mestrado vai focar precisamente o modo como a literatura de Cabo Verde reflete e apresenta os problemas identitários dos habitantes das ilhas.
            O primeiro capítulo vai tratar, do ponto de vista teórico, da problemática das diferentes definições que se pode atribuir à identidade, tais como a nacional, a cultural ou a social. Esta investigação geral vai servir para a análise do resto do trabalho.
            No segundo capítulo da dissertação irei analisar as diversas propostas teóricas de determinar e definir a identidade cabo-verdiana. Aqui tentarei mostrar tanto os primeiros projetos identitários cabo-verdianos do começo do século XX, como as múltiplas propostas contemporâneas.

            O terceiro, e o último capítulo do trabalho vai ser constituído pela análise detalhada de várias obras literárias das ilhas de Cabo Verde que incluem os motivos mais recorrentes e fundamentais para a construção da identidade cabo-verdiana. A dissertação vai acabar com as conclusões finais.     


Amostra 3: Alda



A ação do livro “Ensaio sobre a Cegueira” de José Saramago ocorre numa cidade e numa sociedade indefinida. Pode ser em qualquer parte, os personagens sem nome podem ser quaisquer pessoas, quaisquer de nós e é nesse lugar, também sem nome, que ocorre uma epidemia de cegueira.

Tudo começa com um homem que fica cego quando está num semáforo e que fica a gritar dento do carro: “Estou cego, estou cego, repetia com desespero enquanto o ajudavam a sair do carro”.

As pessoas acorrem em seu auxílio sem perceber o que se passa, falam em o levar ao hospital e um bom samaritano acaba por o acompanhar a casa, enquanto o cego descreve o que vê: “é como se estivesse no meio de um nevoeiro, é como se tivesse caído num mar de leite” e chora, impotente.
Sozinho, na sua casa, lembra-se da sua adolescência quando jogara ao “E se eu fosse cego” e até concluíra que a cegueira, apesar de ser uma desgraça, até poderia ser suportável, desde que se mantivessem as memórias das cores e das coisas. Naquele momento compreendeu que nem na sua própria casa conseguia mover-se e acaba por se ferir numa jarra que se partiu. Desistiu de tentar fosse, até ser encontrado pela mulher.

A mulher não acreditava nem percebia o que se passava mas acabou por o levar ao médico, que ficou tão perplexo como ela e não conseguiu encontrar qualquer justificação.

Entretanto o bom samaritano que, afinal, lhe roubara o carro, debatia-se entre o medo do que tinha visto e a consciência do ato que estava a praticar.



-----------------------  estas folhas são novas ---------------------------------------------

Entrou num crescendo de angústia e, também ele, acabou por cegar. Depois foi o médico e, a seguir, outra cliente do médico que estava na sala de espera quando o primeiro homem lá estava, a rapariga de óculos, uma prostituta, que cegou quando estava com um cliente. Os casos espalharam-se ainda sem que alguém se apercebesse do que estava a acontecer.

O médico tentou avisar o governo e os colegas mas era difícil de acreditar e, só quando os outros casos foram conhecidos é que houve reação. A partir destes momentos iniciais, a cegueira comporta-se como uma epidemia e alastra rapidamente, por todo o lado, sem poupar ninguém. O governo decide colocar as pessoas infetadas de quarentena, numa tentativa de conter a epidemia, o que não resulta. Depressa todos os que tinham contactado com o primeiro cego foram afetados, exceto a mulher do médico que, na ambulância chamada para o transportar, alegou cegueira, para poder acompanhar o marido. São enviados para um manicómio abandonado. Ao longo do livro vai ser ela a assumir o papel dos olhos dos leitores, perante os comportamentos daqueles que, diminuídos pela falta de visão, vão ver diminuídas a sua dignidade e os seus valores, até ao nível mais baixo de uma condição que dificilmente ainda poderia ser chamada de humana.

A princípio eram quatro cegos, entre os quais uma criança, e a mulher do médico, que não podia revelar que não era um deles. Cedo começaram as dificuldades. A primeira discussão derivou das acusações ao ladrão que tinha sido capaz de roubar um cego que, por sua vez, culpava o médico pelo que tinha acontecido. Tiveram de lidar com as dificuldades básicas, como encontrarem a casa de banho ou circularem pelas instalações. Na manhã seguinte começaram a chegar mais cegos e tudo começou a piorar. Andavam pelo edifício agarrados uns aos outros, ou com um lençol atado ao tornozelo, como se de um labirinto se tratasse pois, na verdade, para eles, era um labirinto de corredores e dormitórios. Com o passar dos dias, as disputas agravavam-se e a sujidade e a degradação iam-se instalando, ao mesmo tempo que a sua humanidade se ia perdendo.

Saramago não poupa os leitores e leva-os através de uma narrativa de lutas por comida, atos de violência e mortes. O abandono e a consequente desumanização e perda de dignidade levaram aqueles que antes eram polícias, motoristas de táxi, empregados de escritório, escritores, ou qualquer outra coisa, isto é, pessoas, a ter atitudes primitivas e animalescas que antes seriam impensáveis. Descreve o assumir do controlo, a tomada de poder, pelos dominadores e as vergonhas, humilhações e embaraços dos dominados. Também há personagens que revelam compaixão, coragem e capacidade de ternura, mas os horrores descritos sobrepõem-se pela sua intensidade. A necessidade e o desespero são tão fortes que até a mulher do médico chega ao ponto de matar para se defender e defender os que dela dependem.
Um dia juntou-se ao grupo o último dos pacientes da sala de espera. Não se sabe se tinham passado dias ou meses, porque toda a história é contada sem dar ao leitor referências temporais. O velho tinha cegado e sido levado para ali, tal como os outros, mas tinha estado tempo suficiente lá fora para ter visto muita coisa. Contou, por exemplo, que, no início, o medo lá fora era tão grande que tinham começado a matar todos os que ia cegando, numa tentativa de evitar o contágio.
As notícias tinham-se começado a espalhar quando já havia uma centena de casos. O governo tinha arranjado hipóteses e explicações disparatadas para justificar a situação mas a verdade é que não se sabia nada. A epidemia tinha alastrado e intensificado o envio dos cegos para todos os locais disponíveis. Os transportes estavam caóticos e espalhado por todo o lado, porque as pessoas tinham deixado de os usar depois de um motorista ter cegado ao volante.
Tinha trazido um rádio com ele. Descartando as possíveis notícias, que não queriam ouvir, choraram juntos ao som de uma canção.

------- ainda não acabei ----------------------

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