O terceiro, e o último capítulo do
trabalho vai ser constituído pela análise detalhada de várias obras literárias
das ilhas de Cabo Verde que incluem os motivos mais recorrentes e fundamentais
para a construção da identidade cabo-verdiana. A dissertação vai acabar com as
conclusões finais.
Amostra 3: Alda
A ação
do livro “Ensaio sobre a Cegueira” de José Saramago ocorre numa cidade e numa
sociedade indefinida. Pode ser em qualquer parte, os personagens sem nome podem
ser quaisquer pessoas, quaisquer de nós e é nesse lugar, também sem nome, que
ocorre uma epidemia de cegueira.
Tudo
começa com um homem que fica cego quando está num semáforo e que fica a gritar
dento do carro: “Estou cego, estou cego,
repetia com desespero enquanto o ajudavam a sair do carro”.
As
pessoas acorrem em seu auxílio sem perceber o que se passa, falam em o levar ao
hospital e um bom samaritano acaba por o acompanhar a casa, enquanto o cego descreve
o que vê: “é como se estivesse no meio de
um nevoeiro, é como se tivesse caído num mar de leite” e chora, impotente.
Sozinho,
na sua casa, lembra-se da sua adolescência quando jogara ao “E se eu fosse
cego” e até concluíra que a cegueira, apesar de ser uma desgraça, até poderia
ser suportável, desde que se mantivessem as memórias das cores e das coisas.
Naquele momento compreendeu que nem na sua própria casa conseguia mover-se e
acaba por se ferir numa jarra que se partiu. Desistiu de tentar fosse, até ser
encontrado pela mulher.
A
mulher não acreditava nem percebia o que se passava mas acabou por o levar ao
médico, que ficou tão perplexo como ela e não conseguiu encontrar qualquer
justificação.
Entretanto
o bom samaritano que, afinal, lhe roubara o carro, debatia-se entre o medo do
que tinha visto e a consciência do ato que estava a praticar.
----------------------- estas folhas são novas
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Entrou
num crescendo de angústia e, também ele, acabou por cegar. Depois foi o médico
e, a seguir, outra cliente do médico que estava na sala de espera quando o
primeiro homem lá estava, a rapariga de óculos, uma prostituta, que cegou
quando estava com um cliente. Os casos espalharam-se ainda sem que alguém se
apercebesse do que estava a acontecer.
O
médico tentou avisar o governo e os colegas mas era difícil de acreditar e, só
quando os outros casos foram conhecidos é que houve reação. A partir destes
momentos iniciais, a cegueira comporta-se como uma epidemia e alastra
rapidamente, por todo o lado, sem poupar ninguém. O governo decide colocar as
pessoas infetadas de quarentena, numa tentativa de conter a epidemia, o que não
resulta. Depressa todos os que tinham contactado com o primeiro cego foram
afetados, exceto a mulher do médico que, na ambulância chamada para o
transportar, alegou cegueira, para poder acompanhar o marido. São enviados para
um manicómio abandonado. Ao longo do livro vai ser ela a assumir o papel dos
olhos dos leitores, perante os comportamentos daqueles que, diminuídos pela
falta de visão, vão ver diminuídas a sua dignidade e os seus valores, até ao
nível mais baixo de uma condição que dificilmente ainda poderia ser chamada de
humana.
A
princípio eram quatro cegos, entre os quais uma criança, e a mulher do médico,
que não podia revelar que não era um deles. Cedo começaram as dificuldades. A
primeira discussão derivou das acusações ao ladrão que tinha sido capaz de
roubar um cego que, por sua vez, culpava o médico pelo que tinha acontecido. Tiveram
de lidar com as dificuldades básicas, como encontrarem a casa de banho ou circularem
pelas instalações. Na manhã seguinte começaram a chegar mais cegos e tudo começou
a piorar. Andavam pelo edifício agarrados uns aos outros, ou com um lençol
atado ao tornozelo, como se de um labirinto se tratasse pois, na verdade, para
eles, era um labirinto de corredores e dormitórios. Com o passar dos dias, as
disputas agravavam-se e a sujidade e a degradação iam-se instalando, ao mesmo
tempo que a sua humanidade se ia perdendo.
Saramago
não poupa os leitores e leva-os através de uma narrativa de lutas por comida,
atos de violência e mortes. O abandono e a consequente desumanização e perda de
dignidade levaram aqueles que antes eram polícias, motoristas de táxi,
empregados de escritório, escritores, ou qualquer outra coisa, isto é, pessoas,
a ter atitudes primitivas e animalescas que antes seriam impensáveis. Descreve
o assumir do controlo, a tomada de poder, pelos dominadores e as vergonhas,
humilhações e embaraços dos dominados. Também há personagens que revelam compaixão,
coragem e capacidade de ternura, mas os horrores descritos sobrepõem-se pela
sua intensidade. A necessidade e o desespero são tão fortes que até a mulher do
médico chega ao ponto de matar para se defender e defender os que dela dependem.
Um dia
juntou-se ao grupo o último dos pacientes da sala de espera. Não se sabe se
tinham passado dias ou meses, porque toda a história é contada sem dar ao
leitor referências temporais. O velho tinha cegado e sido levado para ali, tal
como os outros, mas tinha estado tempo suficiente lá fora para ter visto muita
coisa. Contou, por exemplo, que, no início, o medo lá fora era tão grande que
tinham começado a matar todos os que ia cegando, numa tentativa de evitar o
contágio.
As notícias
tinham-se começado a espalhar quando já havia uma centena de casos. O governo
tinha arranjado hipóteses e explicações disparatadas para justificar a situação
mas a verdade é que não se sabia nada. A epidemia tinha alastrado e
intensificado o envio dos cegos para todos os locais disponíveis. Os
transportes estavam caóticos e espalhado por todo o lado, porque as pessoas
tinham deixado de os usar depois de um motorista ter cegado ao volante.
Tinha
trazido um rádio com ele. Descartando as possíveis notícias, que não queriam
ouvir, choraram juntos ao som de uma canção.
------- ainda não acabei
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